quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Tabacaria de Fernando Pessoa

Bom dia. Aqui está mais um poema :D



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo

Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.


Beijos,
-F 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Os poemas são pássaros que chegam de Mário Quintana

Boa noite.
Nesta fria noite trago um poema de Mário Quintana.


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estavam em ti...



Beijos,
-F

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Bilhete de Mário Quintana

Boa noite leitores. Hoje trago um pouco de poesia. Desta vez é de Mário Quintana. Espero que gostem.





Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim, 
tem de ser bem devagarinho, Amada, 
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...



Beijos,
-F



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Prometeu, Pandora e Licáon - Parte 2

     Olá meus caros leitores. 
    Como prometido (apesar de já ter passado alguns meses), aqui está a continuação da primeira parte de Prometeu, Pandora e Licáon. Para entenderem esta parte, é melhor relembrarem o que foi dito anteriormente. Para isso, podem ver por aqui. 




O Roubo do Fogo

     O pai dos deuses honrou a sua palavra. A divisão da carne feita por Prometeu, seria sempre da mesma maneira para todos os sacrifícios futuros. Zeus, nada podia fazer para alterar o acordo. Este, porém, podia vingar-se tanto da humanidade como de Prometeu que tanto gostava deles, fazendo um novo regulamento. Como castigo, nenhum humano podia usar o fogo, ou seja, não poderiam se aquecer, não podiam forjar armas e, o mais importante, não podiam cozinhar alimentos. Se aos deuses era negada a possibilidade de cozinhar alimentos nos seus altares, aos mortais seria negada a possibilidade de terem alimentos cozinhados nas suas mesas.

     Prometeu subiu ao Monte Olimpo para roubar o fogo dos deuses. Diz-se que a deusa Atena (Minerva) o terá ajudado, visto que, ela protege a inteligência e a habilidade. Prometeu manteve o fogo numa cana oca ou talvez num pé de funcho enquanto descia para o mundo mortal. Viajou por todo o lado onde viviam seres humanos. O Titã espalhou por todo o lado a dádiva do fogo e não tardou a haver tantos fogos em tantas lareiras que os deuses  foram incapazes de os apagar. 



Pandora

Pandora e a caixa.
    Zeus estava furioso e decidiu pregar uma partida à humanidade e aos Titãs. No entanto, Zeus era cauteloso ao tentar enganar Prometeu, embora estivesse muito confiante de que o irmão poderia ser facilmente enganado por Epimeteu, o qual não era o mais esperto dos Titãs. Zeus pediu a Hefesto (Vulcano), o deus ferreiro, para construir uma bela mulher de barro e para a nomear de Pandora, cujo significado do nome é "cheia de todos os dons". O pai dos deuses colocou nos braços de Pandora uma grande caixa que estava selada e disse ao filho Hermes (Mercúrio) que a entregasse a Epimeteu como noiva, sendo um presente dos deuses. 
     Prometeu avisou o irmão para ser muito cauteloso com todos os presentes que viessem de Zeus, que não tinha nenhuma razão para ser amistoso. Como Pandora era uma mulher muito bela, Epimeteu decidiu casar-se com ela. Hermes avisou Pandora para nunca abrir a caixa que possuía. Nas primeiras semanas, Pandora resistiu à tentação mas, de dia para dia, a sua curiosidade crescia. Esta bela mulher pensava que dentro da caixa estaria alguma coisa preciosa e que era injusto por parte dos deuses terem-lhe dado algo e proibi-la de ter esse prazer. Por fim, Pandora abriu a caixa. De dentro da misteriosa caixa, saiu todas as doenças e desastres que assombravam a humanidade. Pandora ainda tentou fechar a caixa, no entanto, só conseguiu manter lá dentro a Esperança. 
     Em outra versão desta história que tenta desculpar os deuses, diz-se que se, de facto, a Esperança estava no fundo da caixa, por certo o resto do conteúdo era igualmente encantador. Nesta versão, a caixa estava a abarrotar de dádivas, as dádivas dos deuses do Olimpo e todas elas, à exceção da Esperança, foram por nós perdidas devido à curiosidade de uma louca. 
   

Curiosidade

     Esta história, de como o mal chegou ao mundo devido à loucura de uma mulher, é o reflexo da história bíblica da tentação de Eva pelo Fruto Proibido, o que trouxe a morte ao mundo juntamente com outras calamidades. Alguns teólogos argumentam que o mito de Pandora é uma imagem fraca da verdade bíblica. Críticos especializados em mitos, frequentemente, classificam todas as mulheres pela introdução do mal no mundo como fruto de uma sociedade patriarcal. 


Bibliografia

Livro "Mitologia e lendas de todo o mundo".
Livro "Dicionário cultural da mitologia Greco-Romana".








Beijos,

-F



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Intimidade


Boa noite. Esta noite trago um poema de Miguel Torga. 



Meu coração tem quantos versos quer;
É só pulsá-los com medida e rumo.
É só erguer-se a pino a um céu qualquer,
E desse alado azul cair a prumo.

Logo se desvanece o negro encanto
Que os tinha ocultos no condão da bruma;
Logo o seu corpo esguio rasga o manto,
E mostra a humanidade que ressuma.

Mas quanto ele sangra para os orvalhar
De ternura, de sonho e de ilusão,
São outros versos... para segredar
A quem é seu irmão. 



- Miguel Torga in Diário (1943)


Beijos,
-F

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Soneto 116

Boa tarde, hoje trago mais um poema. Boa leitura.


De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.



-William Shakespeare
Beijos,
-F

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Prometeu, Pandora e Licáon - Parte 1

Olá leitores :)
Como prometido, hoje trago um pouco de mitologia. Estes mitos vão ser divididos entre três a quatro partes. Quero ver se posto cada parte, pelo menos, uma vez por semana.
Boa leitura.




Prometeu e Epimeteu eram dois filhos do Titã Jápeto e da ninfa do mar Clímene.
Prometeu, fazendo valer o seu nome, que traduzido do grego significa "espectativa agradável", era alguém que planeava o futuro. O nome do seu irmão, Epimeteu, significa "olhar para o passado". Apesar de Epimeteu ser bom a prestar atenção ao passado, esta dádiva não o ajudou na sua época de contrariedades. Este par de irmãos, apesar do significado dos deus nomes, não conseguiram viver uma vida feliz.
Sacrifício aos deuses
Após Zeus e os seus deuses terem destronado os Titãs, todos os deuses do poderosos Olimpo queriam que os seres humanos oferecessem sacrifícios de carne. O povo oferecia sacrifícios, conforme os festivais sagrados exigiam, com o objetivo de se alimentarem da carne sacrificada. Tanto os deuses como os humanos procuravam ficar com as melhores partes. Prometeu foi escolhido para cortar um animal para sacrifício para que Zeus pudesse escolher a metade que mais lhe agradasse e para decidir, para sempre, qual metade pertencia ao pai dos deuses e qual metade ficaria para os humanos.
Prometeu sempre quis ajudar a pobre humanidade e deve ter pensado que esta divisão de carne era injusta visto que os deuses nunca tinham tido qualquer trabalho. Por isso, cortou, com todo o cuidado, as carcaças e amontoou a carne comestível por baixo da pele, colocando o estômago por cima, pelo que todo o monte tinha um aspeto pouco apetitoso. Fez um outro monte com ossos cobertos com uma espessa camada de gordura do animal, dando a entender que parecia estar pronto para ser cozinhada para uma festa.
Zeus escolheu o monte de ossos e gordura. Ninguém sabe se ele foi enganado ou se fingiu, pois talvez ele tenha visto mais além, prevendo uma oportunidade de se vingar de toda a humanidade e do Titã Prometeu. De qualquer modo, mais nenhum animal foi sacrificado em nome de um deus e apenas ossos e gordura passaram a arder nos altares. Os deuses têm de se contentar com o cheiro da gordura enquanto que os humanos se banqueteiam com a carne.



Bibliografia:

Livro "Mitologia e lendas de todo o mundo".
Livro "Dicionário cultural da mitologia Greco-Romana".
 
 
Beijos,
-F
 
 

 
 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Ando pelas ruas desta incerta cidade de Graça Pires


Olá caros leitores,
tanto eu como a Katra andamos desaparecidas por motivos pessoais. Ambas temos de estudar, a Katra na universidade e eu no secundário. O que é certo, é que ambas temos exames à porta. Pedimos desculpas pela demora de posts. Durante esta semana, no máximo, na próxima semana, irei postar um novo artigo sobre mitologia. Portanto, quem gosta de mitologia que fique atento ;)
 
 
Ando pelas ruas desta incerta cidade.
Deixo que o meu olhar
se ajuste ao olhar dos outros.
Entre ruas e rostos há fragmentos de solidão
que denunciam a trágica expressão da vida.
Todos conhecem a oralidade da mudez,
a vigília da revolta, a senha do desdém,
a estranheza de golpes imolando os sonhos.
Eu, com uma fala colada na língua,
somente me consinto
a áspera caligrafia do silêncio.
Graça Pires, in Uma claridade que cega
 
 
Beijos,
-F e Katra
 
 
 
 

sábado, 14 de novembro de 2015

Os Filhos de Zeus

Olá leitores, hoje trago mais um post sobre mitologia. Boa leitura.


Ilha de Ortígia
Zeus, pai de todos os deuses, era casado com a deusa do casamento, Hera, e os filhos de ambos eram o deus da guerra, Ares (Marte), e o deus ferreiro Hefesto (Vulcano). Para além destes, Zeus era pai de inúmeros filhos que, se a mãe fosse uma deusa, nasciam dela deuses e deusas. Apolo, o deus do sol, e Ártemis (Diana), a deusa da lua e da caça, eram filhos de Zeus e Leto. A deusa do casamento, espicaçada pelo seu ciúme, proibiu Leto de permanecer em qualquer lugar sólido sobre a terra quando chegou a hora de esta dar à luz. Unicamente, a ilha flutuante de Ortígia lhe deu abrigo e, como recompensa, foi fixada com pilhares de diamantes. Hermes (Mercúrio) era filho de Zeus e da deusa menor Maia. A donzela Perséfone (Proserpina) era filha de Zeus e de Deméter.

Deusa Atena 
A primeira mulher de Zeus foi a deusa da prudência sábia, a Titã Métis, filha de Oceano e de Tétis. Gaia profetizou que, tal como acontecera anteriormente ao seu pai ao avô, Zeus iria ser despojado pelo filho. A Mãe Terra disse também que Métis estava destinada a por no mundo primeiramente uma filha de espírito forte e seguidamente um filho que seria o novo rei dos deuses e dos homens. Zeus encontrou uma forma de evitar esta profecia. Este optou por uma solução parecida com a do seu pai: engoliu a grávida. Assim, a Titã só teve uma filha a qual cresceu dentro do corpo do pai até que este começou a ter dores insuportáveis de cabeça, a ponto de, segundo o mito, ordenar a Hefesto que pegasse num machado e lhe abrisse o cérebro. De dentro de Zeus, saiu uma deusa adulta, já equipada de com a armadura e pronta para a batalha, Atena (Minerva). Embora a deusa guerreira tenha nascido adulta, não estava interessada em desafiar o pai ou tentar salvar a mãe como acontecera com os seus antecessores. Quando o pai de todos os deuses engoliu a Titã Métis, incorporou a sabedoria e a prudência. Assim, Zeus pôs um fim às desavenças e ao ressentimento que tinham levado à destituição gerações anteriores. Atena era a filha favorita de Zeus e esta foi-lhe sempre leal. Era a deusa da habilidade e da astúcia, da inteligência e da ingenuidade. Com o nascimento de Atena, o ódio e o terror que dominava entre pais e filhos da família dos deuses do Olimpo terminou. 


Bibliografia:

Livro "Mitologia e lendas de todo o mundo".
Livro "Dicionário cultural da mitologia Greco-Romana".


Beijos,
-F




segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Entrevista a Catarina Pinto

Olá leitores.
Hoje trago uma entrevista feita à escritora Catarina Pinto. Já postei um poema desta autora no mês de Setembro intitulado de "Escuridão da Alma".
Agradeço desde já à Catarina por disponibilizar um pouco do seu tempo para responder à entrevista.




   Entrevista:


1 - Catarina, como foi e quando se deu o seu encontro com a arte?

A verdade é que começou bastante cedo, ainda mal sabia ler e perdi-me nos inúmeros livros que os meus pais tinham em casa. Já na escola era costume ir à biblioteca e escolher um livro para o "fim de semana"... Lia um pouco de tudo: poesia, histórias juvenis, romances... Esse hábito de leitura começou cedo e tem me acompanhado desde sempre.


2 - Quais as influências de infância e de adolescência que marcaram a sua vida, tanto como escritora, como uma mulher adulta?

Principalmente os meus pais, os livros e os poetas e/ou escritores que deixaram uma marca forte no nosso país, desde Florbela Espanca, Eça de Queiroz, Pessoa... Recordo perfeitamente de ir para a Biblioteca Municipal do Porto nos dias em que não tinha aulas de tarde (isto na adolescência).



3 - O "Idílio" foi um sonho completamente realizado? Se não foi, o que faltava?

Considero que o "Idílio" foi realizado, cada poema é de algum momento específico, mas que começou e por ali terminou... E logo de seguida, surge outro e é como um ciclo de vida...


4 - No "Idílio" um dos pontos que se toca, além do amor, da tristeza e do agradecimento, também se fala da terra maravilhosa que é o México. O que houve de tão especial no México para a fazer amar assim tanto essa terra?

É verdade, e falo porque o México faz parte de mim, costumo dizer que sou Mexicana de alma e cada vez mais acredito nisso. Existem lugares onde nós nos sentimos em casa e foi assim durante os mais de dois anos que lá estive. Foi um momento de encontro e de conciliação comigo mesma, foi o amadurecer que tanto ansiava. O México desde muito cedo passou a fazer parte da minha vida, desde os onze anos que tinha um fascínio e ainda tenho os meus primeiros livros do México que eram guias de viagem, mas para mim eram e são um dos meus tesouros, pois o que eu sonhei durante anos evoluiu para a realidade e a verdade.


5 - O México influenciou a sua maneira de escrever?

Completamente, lá senti algo único, a liberdade e o gosto por viver Tudo o que lá se passou de bom ou de mau, moldou a minha escrita totalmente. Passou a ser uma descoberta de novas palavras, de um novo idioma que iria deixar "lascas" na minha poesia.


6 - Que tipo de feedback o "Idílio" tem recebido?

Tem sido bastante bom o feedback dos leitores, têm acarinhado bastante, o que nos leva a sentir bem e quando se identificam com um ou mais poemas é deveras gratificante, conseguimos lá chegar, ao interior do leitor. Por diversas vezes disseram-me "é exatamente o que eu sinto, mas não sei dizer, não sei escrever..."


7 - Fale um pouco sobre si, quem é a Catarina Pinto?

Catarina Pinto é uma pessoa completamente normal, com uma longa história de vida como todos. Que não desiste dos seus sonhos. Há sempre um caminho para seguir... Hoje em dia sou uma pessoa apaixonada pela vida e por quem me rodeia.


8 - Para quem escreve?

Para mim, para o meu México, para quem amo, para quem me possa ter ferido, para algum instante que me marcou, para os leitores, para a imaginação... A escrita é na verdade, um jogo poético...


9 - Se pudesse escolher um animal, que tipo de animal escolheria?  E porquê?

Outra vez o México está presente, se pudesse escolher seria um quetzal, um pássaro que predomina na América Central e porque está associado de uma certa forma a uma divindade das culturas mesoamericanas como toltecas e astecas, Quetzalcoalt, ou seja, a serpente emplumada.



10 - Qual é o seu maior sonho? E o maior medo?

O meu maior sonho já o realizei, sobreviver diariamente e ter encontrado a paz e a felicidade. O maior medo é um dia perder o que consegui.


11 - Tem algum arrependimento?

Não. O que fiz de mal está feito e não há maneira de mudar. Se mudasse, com toda a certeza não estaria onde estou nos dias de hoje. E não é o que quero.


12 - Há algum projeto em vista?

No computador imensas ideias já escritas ou alinhavadas como pequenos livros de poesia, cada um com uns trinta poemas, um romance, um livro de contos e outro sobre o México... E espero num breve período de tempo ter o prazer de publicar.



13 - Que conselho daria a jovens escritores?

Jamais desistam de um sonho, pareça ele uma utopia ou algo estranho... É preciso saber esperar, porque no momento certo sucede. Continuem sempre a escrever, sejam persistentes, aceitem as críticas mas sejam vocês mesmos, não mudem para parecer bem... Quantas vezes ai está a diferença e o sucesso.




Autobiografia: 

Nasci em 1981 na freguesia de Fânzeres, Gondomar. Hoje resido em Amarante.
Tive a oportunidade de viajar e inclusive vivi dois anos no México (país da minha alma, que me marcou muito como pessoa e mesmo na forma de escrever.)
Tenho o 12.º ano de Comunicação e Difusão mais um curso de Animadora Sociocultural. Trabalhei como secretária, em organização de festas e em Creche.
Escrevo desde os 13 anos, a escrita é uma forma de refúgio. Ajuda-me a ser uma pessoa diferente. Durante o tempo que estive no México escrevi sob o nome de Nina, de regresso a Portugal optei pelo meu nome mas a escrita tornou-se diferente... Talvez como eu...
Os primeiros textos que escrevi são como uma Antologia... Passam de 2000. Agora comecei a escrever como livro "As histórias que os livros não contam", "Teus Olhos Liláses", "O que resta de mim", "Saudade do Ontem, "A magia das palavras", "Desfolhando pétalas", "Pecado vermelho" e "Cempoalxóchilt"; têm cerca de 20 poemas cada um e não estão publicados.
"Idílio" é o primeiro livro que publico. Participei na Antologia Solar de Poetas I e Mar-à-Tona da editora Modocromia; Poesia Sem Gavetas III  da Pastelaria Studios e por fim Lugares e Palavras do Porto da Lugar da Palavra Editora, todos em 2014.



Beijos,
-F